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22 de março | 2025

Legado de uma pioneira: a médica que ajudou a difundir o Papanicolaou no Brasil

Dra. Scylla Duarte Prata: a médica ginecologista que sempre esteve à frente do seu tempo.

Neste mês em que celebramos o “Dia Internacional da Mulher” (8 de março) e o “Março Lilás” – campanha de conscientização sobre a prevenção do câncer do colo do útero – o Hospital de Amor tem a honra de homenagear todas as ‘suas mulheres’, que cuidam, acolhem, amparam, ensinam e, acima de tudo, amam! Que tratam – com todo respeito e carinho do mundo – milhares de pacientes. Que fazem o Hospital, ser de Amor!

E por falar em mulher que faz a diferença, o HA não pode deixar de homenagear uma de suas preferidas, motivo de muito orgulho para todos, especialmente para os colaboradores e pacientes da instituição: Dra. Scylla Duarte Prata – a médica ginecologista que sempre esteve à frente do seu tempo. Ela não só criou uma das maiores obras de amor ao próximo da América Latina, o Hospital de Amor (referência em tratamento oncológico gratuito de excelência, com o maior serviço de prevenção de câncer do país e uma estrutura completa focada em ensino e pesquisa), como também foi pioneira na prevenção do câncer ginecológico.

Você sabia que foi ela quem ajudou a difundir o Papanicolaou (principal exame preventivo no rastreamento do câncer do colo do útero) no Brasil, sobretudo no interior? Venha conhecer essa história!
A médica de nascença
Nascida em Sacramento (MG) – a 220 km de Barretos (SP) – Scylla (quarta filha de Antenor Duarte Vilela e Ruth Vieira Duarte), desde nova se mostrou muito estudiosa e, ainda criança, decidiu que seria médica. Aluna aplicada, Scylla ingressou na Faculdade de Medicina da USP, em São Paulo, na década de 1940, e lá conheceu seu marido, o saudoso Dr. Paulo Prata, com quem se casou e deu início à família ‘Duarte Prata’.
Profissional dedicada, a ginecologista e obstetra sempre foi reconhecida como uma mulher à frente de seu tempo, pois nutria grande interesse por novas técnicas, cirurgias e procedimentos com imagem, ajudando a trazer para o Brasil a colposcopia (exame ginecológico realizado para avaliar o trato genital inferior feminino) e práticas de Papanicolaou.
O pioneirismo
Segundo a historiadora Karla Armani, longe da capital, a cidade de Barretos ganhava suas duas primeiras mulheres formadas como médicas em 1949: a Dra. Scylla, na USP, e a dra. Nilda Bernardi, formada pediatra no Rio de Janeiro. À época, as poucas mulheres que se formavam em medicina tendiam a escolher a mesma especialidade: ginecologia e obstetrícia, pediatria ou clínica médica. A presença de mulheres médicas em outros tipos de especialidades era rara e tornou-se realidade mais visível décadas depois.

Scylla especializou-se em ginecologia por influência de sua principal referência na medicina, o professor Domingos Delascio. Ele era professor universitário, ginecologista conceituado, autor de obras científicas e referência na tradicional Maternidade Matarazzo, Santa Casa de São Paulo e outras instituições da capital, sendo pioneiro em diversas frentes da saúde da mulher.

Scylla ingressou na Faculdade de Medicina da USP, em São Paulo, na década de 1940.

Enquanto aluna da USP, Delascio foi seu professor e depois de formada se tornou “médica estagiária” da equipe dele. Era considerada uma residente brilhante, muito dedicada e por isso manteve com seu mestre uma relação de amizade, respeito, reciprocidade e gratidão por toda a vida.

Em São Paulo, Scylla atuou como médica do Instituto de Aposentadoria e Pensões dos Comerciários de Santos. Trabalhou na Clínica Ginecológica da Faculdade de Medicina, e fez cursos como de aperfeiçoamento de clínica ginecológica, propedêutica obstétrica, patologia obstétrica, pós-graduação de tumores malignos do aparelho genital e participou de congressos.

Para além da obstetrícia e já tendo contato com os estudos do câncer ginecológico, como assistente do Dr. Domingos Delascio, ela aplicava em suas pacientes exames preventivos de lesões cancerígenas, como a colposcopia, a diatermocoagulação e o Papanicolaou. Junto ao professor, ela fazia estudos científicos sobre o câncer uterino e especialmente o câncer de endométrio, sendo pioneira na difusão do exame no interior de São Paulo.

Nesta trajetória impecável, Scylla se tornou uma respeitável “médica de senhoras”, assim como desejou desde muito jovem, conhecida não só pelo pioneirismo na prevenção do câncer, mas por suas técnicas na obstetrícia e em cirurgias. E quando, ao lado do seu marido, Dr. Paulo Prata (in memoriam), ela fundou o Hospital de Amor (na época Hospital São Judas Tadeu – atual unidade de cuidados paliativos e de atenção ao idoso), ela se destacou!

Scylla se especializou ainda mais no câncer ginecológico e, em 1994, com a contribuição de seu marido – que dizia que “a prevenção é o melhor remédio”, ela foi uma professora para a enfermeira Creuza Saure, responsável por colher exames de Papanicolaou em 92% da população barretense com uma bicicleta e uma mesa ginecológica. Juntas, elas agiram por décadas, por idealismo e confiança no projeto do hospital.

Graças à expertise da médica, o HA salva, ainda hoje, milhares de vidas! São quase 63 anos de história e mais de 30 deles realizando um trabalho incrível de rastreamento e busca ativa, que leva saúde de qualidade e exames preventivos de câncer, gratuitamente, à população das localidades mais distantes e necessitadas. Atualmente, a instituição possui 27 unidades fixas de prevenção e mais de 50 unidades móveis que rodam o Brasil, na tentativa de reduzir as desigualdades de acesso à saúde e oferecer tratamentos mais efetivos.

Em 2024, a médica completou 101 anos – um centenário de pioneirismo, profissionalismo, inteligência, religiosidade, humanização e amor.

Ao lado do marido, Dr. Paulo Prata (in memoriam), Dra. Scylla fundou o Hospital de Amor.

O câncer do colo do útero
No Brasil, o câncer do colo do útero é a terceira neoplasia maligna mais frequente entre as mulheres e, apesar das iniciativas de prevenção, permanece com altas taxas de mortalidade, com diferenças regionais significativas. De acordo com o Instituto Nacional de Câncer (INCA), a doença é causada pela infecção genital persistente por alguns tipos do Papilomavírus Humano – HPV (chamados de tipos oncogênicos).

Esse tipo câncer é considerado o que apresenta condições mais promissoras para prevenção e controle, com possibilidades, inclusive, de eliminação. Fazem parte do arsenal de enfrentamento, a vacinação contra o vírus HPV (Papilomavírus Humano), cuja infecção persistente é o principal fator de risco para o desenvolvimento da doença. Além disso, outra estratégia, é a detecção precoce de lesões do colo uterino, classificadas como precursoras do câncer e que podem ser tratadas com procedimento simples e alcançar altas taxas de cura.

“Hoje nós temos instrumentos e possibilidades, tanto relacionados à prevenção primária, quanto à prevenção secundária. Eu estou dizendo sobre vacina contra o vírus HPV, que é o vírus que iminentemente causa o câncer do colo uterino entre as mulheres. E em segundo, a prevenção primária, que são os testes que fazem o diagnóstico e o rastreamento, sendo o mais conhecido, o exame de Papanicolaou”, destaca o coordenador médico do programa de prevenção de câncer ginecológico do Hospital de Amor, Dr. Júlio Possati.

Segundo o Ministério da Saúde, vacinar-se contra o HPV é a medida mais eficaz de se prevenir contra a infecção. A vacina é distribuída gratuitamente pelo SUS e é indicada para:
• Meninas e meninos de nove a 14 anos;
• Mulheres e homens que vivem com HIV, transplantados de órgãos sólidos, de medula óssea ou pacientes oncológicos na faixa etária de 9 a 45 anos;
• Vítimas de abuso sexual, imunocompetentes, de 15 a 45 anos (homens e mulheres) que não tenham tomado a vacina HPV ou estejam com esquema incompleto.
• Usuários de Profilaxia Pré-Exposição (PrEP) de HIV, com idade de 15 a 45 anos, que não tenham tomado a vacina HPV ou estejam com esquema incompleto (de acordo com esquema preconizado para idade ou situação especial).

• Pacientes portadores de Papilomatose Respiratória Recorrente/PRR a partir de 2 anos de idade.

De acordo com o Ministério da Saúde, o exame preventivo contra o HPV, o Papanicolau, é um exame ginecológico preventivo mais comum para identificar de lesões precursoras do câncer do colo do útero. Ele ajuda a detectar células anormais no revestimento do colo do útero, que podem ser tratadas antes de se tornarem câncer. O exame não é capaz de diagnosticar a presença do vírus, no entanto, é considerado o melhor método para detectar câncer do colo do útero e suas lesões precursoras. Quando essas alterações, que antecedem o câncer, são identificadas e tratadas, é possível prevenir 100% dos casos, por isso é muito importante que as mulheres façam o exame regularmente.

Outra medida importante na prevenção do HPV, são os preservativos internos ou externos. Informações do Ministério de Saúde mostram que, “embora seja eficaz na redução do risco de infecções sexualmente transmissíveis (IST), seu uso não elimina completamente a possibilidade de transmissão do HPV. Isso ocorre porque as lesões podem estar presentes em áreas não cobertas pela camisinha, como a vulva, região pubiana, perineal e bolsa escrotal”. Apesar disso, o uso é extremamente importante parra prevenir possíveis doenças.

Os fatores de risco do câncer do colo do útero são as infecções sexualmente transmissíveis (principalmente o HIV); o tabagismo; e os padrões de desiquilíbrio da microbiota vaginal. Os sintomas associados ao câncer do colo do útero, normalmente, estão restritos a situações de diagnóstico mais tardios com doença avançada, isso porque, inicialmente, a doença é assintomática. Os principais sinais e sintomas são: sensação de peso e desconforto na região inferior do abdome; dor pélvica; e sangramento uterino anormal.
O ‘Março Lilás’
Com o objetivo de conscientizar a população sobre a prevenção do câncer do colo do útero, criou-se a campanha ‘Março Lilás’ – que faz parte de um esforço de intensificação das ações de conscientização e mobilização no combate a este tipo de câncer, que representa, ainda, um importante problema de saúde pública no mundo, sobretudo com maior impacto entre mulheres que vivem nos países em desenvolvimento.
Questões relacionadas à desigualdade no acesso aos serviços de saúde; desvalorização dos conceitos de promoção e prevenção a saúde; e diferenças na qualidade e disponibilidade das redes de assistência à saúde da mulher, nas diversas regiões brasileiras, prejudicam o combate à doença.
A incidência do câncer do colo do útero
De acordo com dados do Instituto Nacional de Câncer (INCA), o número estimado de casos novos do câncer do colo do útero para o Brasil, para cada ano do triênio de 2023 a 2025, é de 17.010, correspondendo a um risco estimado de 15,38 casos a cada 100 mil mulheres. Sem considerar os tumores de pele não melanoma, este tipo de tumor ocupa a sexta posição entre os mais frequente. Nas mulheres, é o terceiro câncer mais incidente.

Em relação à distribuição geográfica, ele é o segundo mais incidente nas Regiões Norte (20,48 por 100 mil) e Nordeste (17,59 por 100 mil). Na Região Centro-oeste (16,66 por 100 mil) ocupa a terceira posição; na Região Sul (14,55 por 100 mil), a quarta; e na Região Sudeste (12,93 por 100 mil), a quinta posição.

É justamente para reduzir estes números alarmantes que o HA trabalha, arduamente, em suas campanhas de prevenção, em sua busca por diagnostico precoce e em seus programas de rastreamento. De 2019 a 2024, nas cidades de Boa Vista (RR), Ji-Paraná (RO), Macapá (AP), Porto Velho (RO), Rio Branco (AC) e Vilhena (RO), a instituição diagnosticou (e tratou) cerca de 572 casos positivos de câncer do colo do útero em mulheres nortistas.

Renata Vannier é paciente do Hospital de Amor Amazônia.

O caso de sucesso

Renata Vannier, de 40 anos, é jornalista, trabalha como influenciadora digital em Porto Velho (RO), é paciente do Hospital de Amor Amazônia e muito grata por ser atendida na instituição.

Ela explica que conheceu o HA quando foi convidada, junto a outras influenciadoras locais, para o lançamento de uma campanha de prevenção em Porto Velho, em 2019. “Fomos para este evento, que foi no Hospital de Amor, no qual a equipe do hospital apresentou dados alarmantes das mulheres da região Norte. Eu lembro que foi bem legal, saiu na mídia, nos jornais, etc.  Durante o evento, foi feito uma dinâmica incentivando a gente a levar o maior número de mulheres para fazerem o exame de mamografia, quem levasse mais mulheres se tornaria uma das embaixadoras da unidade. Em seguida, veio a pandemia”, explicou.

Renata conta que começou a desconfiar de que havia algo errado com sua saúde quando ela teve um pequeno sangramento fora do seu ciclo menstrual. “Achei tão estranho na época, foi quando uma amiga até sugeriu que eu pudesse estar grávida. No mês seguinte, ocorreu a mesma coisa, foi quando me consultei com um ginecologista e realizei o exame preventivo. Após isso, precisei fazer colposcopia e depois, biópsia. Fui diagnosticada com câncer do colo do útero na fase NIC 3, já indo para o estágio NIC 4 (considerado avançado). Foi quando iniciei meu tratamento no HA Amazônia. Eu fiz radioterapia, quimioterapia, braquiterapia e graças a Deus, atualmente, depois de algum tempo finalizado o tratamento, realizei exames e foi detectado que estava tudo bem. Deus operou um milagre mesmo, porque não estava bonito, estava bem feio. Meu colo do útero estava quase todo tomado e já tinham linfonodos”, disse a paciente.
A importância da prevenção
“A gente cuida de todo mundo, menos da gente, e acaba deixando o exame sempre para depois. O tempo foi passando e fiquei muito tempo sem fazer o preventivo. Após o meu diagnóstico, comecei a falar sobre o tema nas minhas redes sociais. Muitas mulheres foram fazer exame ao ver o meu relato. Eu tenho feedback de muitas delas, inclusive, de mulheres que descobriram que estavam doentes. Elas me perguntam como é que eu tinha desconfiado, como é que eu descobri a doença”, contou a influenciadora.
Renata agradece todo apoio e atendimento que recebeu no Hospital de Amor Amazônia. “Recentemente realizei uma consulta via telemedicina e achei o máximo. Sigo realizando acompanhamento e falando sore a importância da prevenção nas redes sociais”, finaliza.