
Dra. Mariana Ducatti é doutora em ciências e psicóloga do HA.
Eles são responsáveis por tratar, analisar e estudar a mente humana, seus processos e comportamentos. Dentro de uma instituição oncológica, eles desempenham um papel fundamental junto ao paciente e seu familiar, cuidando da saúde mental de cada um, trazendo acolhimento e suporte para promover a melhora no enfrentamento da doença. Estamos falando sobre a atuação dos psicólogos!
Como neste mês celebra-se o ‘Setembro Amarelo’ – campanha de conscientização sobre a importância da prevenção do suicídio, que surgiu com o objetivo de quebrar tabus, reduzir estigmas, estimular que as pessoas busquem e ofereçam ajuda – o Hospital de Amor ressalta a importância do acompanhamento psicológico no tratamento de câncer.
A doutora em ciências e psicóloga do HA, em Barretos (SP), Dr. Mariana Ducatti, que se dedica há mais de sete anos no cuidado com o paciente oncológico da instituição, explica sobre a sensibilidade da psicologia ao cuidar dos pacientes em um momento tão delicado e marcante como o do diagnóstico de câncer. Confira!
1) De maneira geral, qual a importância do acompanhamento psicológico para as pessoas?
R.: O acompanhamento psicológico favorece ao paciente um espaço para compreensão dos sentimentos, pensamentos e comportamentos vivenciados. Deste modo, sua importância se caracteriza por fornecer a possibilidade de expressar sentimentos que, muitas vezes, causam incômodos e por desenvolver estratégias para lidar com tais situações.
2) E dentro de uma instituição oncológica, qual a importância deste trabalho?
R.: Considerando o contexto oncológico, a psicologia pode auxiliar o paciente nas diversas fases do tratamento. O psicólogo pode, por exemplo, auxiliar por meio da psicoeducação na compreensão do diagnóstico e/ou trabalhar estratégias de enfrentamento, que são necessárias devido as muitas perdas (físicas, emocionais e sociais) causadas pela doença. Além disso, o psicólogo pode auxiliar em demandas relacionadas ao processo de finitude.
3) Qual o papel da psicologia na jornada oncológica?
R.: De forma geral, considera-se que o psicólogo tem dois papéis, sendo o primeiro de avaliar o paciente a fim de identificar as demandas emocionais e estabelecer a meta terapêutica para o acompanhamento psicológico; e o segundo de intervir nas demandas identificadas.
4) Como funciona esse tipo de acompanhamento com o paciente em tratamento de câncer?
R.: Após a identificação da demanda psicológica, o acompanhamento acontecerá conforme necessário (semanalmente ou quinzenalmente, por exemplo). Neste acompanhamento, o psicológico proporcionará um espaço para que o paciente fale de seus sentimentos e pensamentos; e a partir disto, o profissional auxiliará o paciente a lidar com aquilo que lhe causa sofrimento. A forma como essa ajuda acontece tem sempre um embasamento teórico, ou seja, a abordagem do profissional, que pode ser Análise do Comportamento, Fenomenologia, Psicanálise ou Terapia Cognitivo Comportamental, por exemplo; assim, cada intervenção acontece de uma determinada maneira. Além disto, é importante ressaltar que os atendimentos acontecem em todos os setores do Hospital de Amor (enfermarias, unidade de terapia intensiva/UTI, ambulatórios e centro de intercorrência ambulatorial/CIA). O Hospital São Judas Tadeu – a unidade de cuidados paliativos do HA – também conta com uma equipe que realiza visitas domiciliares.
5) Existe um trabalho com as famílias também?
R.: Sim, a equipe de psicologia do Hospital de Amor Infantojuvenil e das Unidade I e II do HA, em Barretos (SP), realizaram, quando necessário, acompanhamento com os familiares, podendo inclusive realizar a “Visita de Crianças e Adolescentes”, que, de forma geral, consiste na avaliação da criança a fim de compreender se, emocionalmente, ela está preparada para entrar no ambiente hospitalar e visitar seu familiar que está internado.
6) Qual a intervenção psicológica mais utilizada com pacientes com câncer?
R.: As intervenções psicológicas dependem da abordagem utilizada por cada profissional. Contudo, é importante ressaltar que uma das principais queixas dos pacientes oncológicos é a dor, por isso é importante que o profissional conheça técnicas que auxiliem esta demanda.
7) Há algum tipo de resistência por parte dos pacientes em relação aos atendimentos psicológicos? Como reverter essa situação?
R.: Pode ser que o profissional de psicologia se depare com pacientes e/ou familiares que não desejam receber o acompanhamento psicológico ou que querem o atendimento, contudo demonstram dificuldade em falar de seus sentimentos. Diante disto, cabe ao profissional analisar cada situação antes de definir uma conduta. Entretanto, é importante ressaltar que o vínculo terapêutico, que é a relação entre profissional e paciente, é algo construído com o tempo; e, após estabelecido, auxilia na diminuição da resistência ao suporte psicológico.
8) Na sua opinião, qual é o maior desafio?
R.: A dinâmica hospitalar por si só já é um desafio, uma vez que é marcada pela possibilidade de intercorrências. Assim, o psicólogo precisa ser flexível para lidar com as situações inesperadas. Contudo, a equipe de psicologia procura, cada vez mais, desenvolver habilidades para lidar com a imprevisibilidade e prestar ao paciente e seu familiar, um atendimento pautado na ética e nas melhores evidências científicas.
9) No HA, quantos atendimentos psicológicos acontecem por dia/mês? E quantos profissionais atuam na instituição?
R.: Hoje, a equipe de psicologia que presta assistência oncológica conta com 25 psicólogos, sendo que quatro são residentes. Em média, considerando a carga horária do profissional, cada psicólogo realiza quatro atendimentos por dia. Indicadores de janeiro a junho de 2024 evidenciaram que, neste período, foram realizados 9.813 atendimentos. É importante pontuar que o trabalho do psicólogo hospitalar não se constitui apenas pelos atendimentos ao paciente e/ou seu familiar, mas também pela participação em reuniões e visitas, produção de indicadores e demais atividades vinculadas a atuação na atenção terciária.
10) Como o paciente pode solicitar esse atendimento?
R.: O paciente pode solicitar o atendimento psicológico para qualquer profissional da saúde que estiver lhe acompanhando. Este profissional encaminhará o pedido para o psicólogo.
11) Se você, psicóloga do HA, pudesse dar um recado para a pessoa que acabou de descobrir o diagnóstico de câncer, qual seria?
R.: Eu costumo dizer que o diagnóstico de uma doença é como um furacão que passa por uma cidade. Esse furacão pode modificar ou destruir algumas coisas; outras não! Mas, independentemente disso, a equipe de saúde terá como objetivo auxiliar na reconstrução daquilo que foi demolido. Nem sempre a reconstrução será semelhante ao original, por isso o psicólogo estará à disposição para auxiliar o paciente a lidar com as mudanças que chegam com o processo de adoecimento.