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16 de fevereiro | 2024

Como infecções estão associadas ao desenvolvimento do câncer

Dr. Ricardo Gama é médico coordenador do departamento de Cabeça e Pescoço e Pesquisador do HA.

Você sabia que agentes infecciosos como bactérias e vírus podem causar câncer? Segundo o médico coordenador do departamento de Cabeça e Pescoço e Pesquisador do Hospital de Amor, Dr. Ricardo Gama, de 15 a 17% de todos os tumores malignos possuem relação com esses agentes, incluindo o câncer de colo uterino, predominantemente ocasionado pelo papiloma vírus humano (HPV), com incidência de mais de 17 mil novos casos por ano apenas no Brasil.

O médico conta que já ficou também evidenciada cientificamente uma relação entre o HPV e o câncer de orofaringe ou garganta. “Um estudo desenvolvido no HA, em Barretos (SP), mostrou que cerca de 20% dos pacientes com câncer de garganta tiveram sua doença associada com a infecção crônica pelo HPV. Em outros países, como os Estados Unidos, o HPV chega a ser responsável por 90% dos tumores de garganta. Além do câncer de colo do útero e da garganta, existem outros diretamente relacionados ao HPV, como o de ânus, pênis, vagina e vulva e todos de transmissão sexual”, explica Gama.

Mas o especialista revela que a infecção pelo HPV não é a única vilã, existem evidências que também comprovam que o câncer de estômago está associado com a infecção pela bactéria conhecida como Helicobacter pilory; assim como o vírus HIV (da AIDS) pode ser fator de risco para alguns tipos de câncer do sistema linfático, como o linfoma; enquanto o vírus de Epstein-Barr (EBV) pode ter relação com o carcinoma nasofaríngeo indiferenciado, o câncer gástrico e o linfoma.

O médico infectologista do Hospital de Amor, Dr. Paulo de Tarso de Oliveira e Castro, ressalta também que as infecções causadas pelo vírus da hepatite B e da hepatite C se não diagnosticadas e tratadas adequadamente, poderão evoluir para hepatite crônica, cirrose e posteriormente para um tipo de câncer do fígado, chamado hepatocarcinoma ou carcinoma hepatocelular. “O câncer do fígado é uma das doenças malignas mais comuns em todo o mundo, com aproximadamente 840.000 casos novos por ano (a sua incidência ocupa o terceiro lugar entre todos os cânceres) e 780.000 mortes foram notificadas em 2018, classificando-se como a terceira mortalidade entre todos os cânceres. O carcinoma hepatocelular é responsável por 90% dos casos primários de câncer de fígado, por isso é considerado um problema de saúde pública desafiador”.
O médico também explica que nos EUA e na Europa Ocidental este tipo de tumor vem aumentando, com a maioria dos pacientes com carcinoma hepatocelular tendo uma cirrose subjacente, que foi principalmente secundária à infecção pelo vírus da hepatite B (HBV) ou pelo vírus da hepatite C (HCV) no passado.
Prevenir infecções a fim de evitar o surgimento do câncer
O infectologista do HA frisa que o HPV e os vírus da hepatite B e C são transmitidos por meio de contato sexual sem proteção, ou seja, sem o uso de preservativo. Assim, a prática de sexo seguro (redução do número de parceiros e o uso correto de preservativo), é a principal forma de prevenção para esses vírus e outras infecções transmitidas pelo sexo, como gonorreia, sífilis, HIV, etc. “Os vírus da hepatite B e C também podem ser transmitidos pelo sangue, então compartilhar seringas e agulhas contaminadas, assim como artigos de uso pessoal, como cortadores de unhas, barbeadores, escovas de dentes, entre outros, podem transmitir esses vírus. Portanto, devemos evitar compartilhar os itens mencionados anteriormente”, diz Tarso.

O médico lembra que tanto o HPV como o vírus da hepatite B, felizmente, têm vacinas disponíveis pelo Sistema Único de Saúde (SUS), portanto a vacinação contra esses vírus, associada às medidas acima, é extremamente eficaz na prevenção dessas infecções e consequentemente na prevenção dos cânceres associados a esses vírus.

“A vacina da hepatite B deve ser iniciada ainda na maternidade e a vacinação completa consiste na administração de 3 doses. A vacina disponível pelo SUS contra o HPV protege contra 4 tipos do vírus e está indicada para meninos e meninas na pré-adolescência (a partir dos 9 anos de idade) e o esquema completo são 2 doses. Na rede privada existe vacina disponível que oferece proteção para 9 tipos do HPV. Infelizmente, para o vírus da hepatite C não existe vacina disponível”, conta.

Dr. Paulo de Tarso de Oliveira e Castro é médico infectologista do HA.

Como pacientes oncológicos devem prevenir infecções
Segundo o infectologista, para o tratamento do câncer o paciente pode precisar de cirurgia que, muitas vezes, são cirurgias de grande porte, quimioterapia ou radioterapia. “A depender do tipo de câncer, estes três tipos de tratamento podem ser associados. Tanto a quimioterapia como a radioterapia diminuem as defesas do paciente e isso coloca o paciente em risco de adquirir infecções”, explica Tarso.

Para os pacientes que irão iniciar o tratamento oncológico, uma das principais medidas para prevenção de infecção é a atualização da carteira de vacinação conforme a faixa etária/idade. Pelo Programa Nacional de Imunização, do Ministério da Saúde, as seguintes vacinas são recomendadas para os pacientes que irão fazer quimioterapia e/ou radioterapia: difteria acelular, coqueluche, tétano, Haemophilus influenza b (conjugada), hepatite B, poliomielite (inativada), sarampo, caxumba, rubéola, zoster, febre amarela, influenza, COVID-19, meningite C, HPV, pneumocócica (VPC13 e VPC23). Todas elas estão disponíveis pelo SUS, entretanto vacinas com vírus vivos ou atenuadas (febre amarela, zoster, sarampo, caxumba, rubéola, pólio oral) são contraindicadas para pacientes em quimioterapia e/ou radioterapia.

 “Ressalto que essa contraindicação vai até 6 meses após o término da quimioterapia e/ou radioterapia. Infelizmente, devido a urgência do tratamento oncológico, o paciente não tem tempo de atualizar sua carteira de vacinação antes do início da quimioterapia e/ou da radioterapia”, enfatiza o Dr. Paulo, que reforça também a necessidade de os familiares estarem com as seguintes vacinas em dia: influenza (gripe), sarampo, rubéola, caxumba e COVID-19.

Cuidados que o paciente oncológico deve ter
É importante que os pacientes que estão em tratamento oncológico evitem contato com pessoas que estejam com infecções transmissíveis, como gripe, resfriado, COVID-19, pneumonia e indivíduos com diarreia, por exemplo. Além disso, os pacientes também devem evitar lugares aglomerados e com pouca ventilação. “Se não for possível evitar tais lugares, eles deverão fazer uso de máscara cobrindo a boca e o nariz enquanto permanecerem nesses locais. Outra medida importante é em relação à alimentação (cuidados alimentares para pacientes oncológicos). Deve-se ter cuidado especial no preparo dos alimentos, como higienizar adequadamente as verduras e legumes, e dar preferência para aqueles que sejam cozidos. As frutas também devem ser higienizadas antes de serem ingeridas e deve-se dar preferência para as que sejam descascadas para serem ingeridas”, detalha o especialista.

Preparação correta
De acordo com o médico, as verduras, frutas e legumes além de serem lavadas em água corrente, também poderão ser submetidas à desinfecção com água sanitária. “Para fazer a solução na proporção correta, use 8ml (uma colher de sopa cheia) de água sanitária para cada litro de água potável. Frutas, legumes e verduras podem ficar de molho na solução de água potável e água sanitária por cerca de 15 minutos. No caso das folhosas, este tempo pode ser reduzido para 10 minutos. Após a imersão, enxaguar bem o alimento em água filtrada ou água corrente tratada com cloro”, explica.

O infectologista também reforça que as carnes (aves, carne bovina e peixes) e os ovos devem estar bem cozidos, ou seja, evitar o consumo de carnes ou ovos malpassados. “Uma outra regra básica e fácil para evitar a contaminação dos alimentos após o preparo, é consumir os pratos quentes antes que eles esfriem e os gelados antes que eles esquentem. Quando são preparadas para servir mais de uma refeição, deve-se refrigerar em geladeira quando ainda não estiverem totalmente frios, ou seja, eles devem ir para geladeira com a temperatura um pouco menor do que chamamos de morno (nem quente e nem completamente frio)”.

Também existem outras recomendações importantes, como não ingerir água que não seja clorada, como água de mina, fontes, cisternas, etc. Além da higiene das mãos, que é uma importante medida de prevenção de infecções, devendo ser realizada antes de se alimentar, antes de preparar os alimentos, após o uso do banheiro, após tocar superfícies que muitas pessoas tocam, com por exemplo maçanetas de banheiro público/coletivo, antes de colocar a mão na boca, nos olhos ou nas narinas.

Dengue, Zika e Chikungunya

Segundo o médico, além de cuidar para que não haja criadouros do Aedes Aegypti em casa e nos seus arredores, tanto o uso de repelente de insetos e o uso de roupas que cobrem os braços e as pernas são fundamentais para a prevenção dessas três doenças. “Para os pacientes que serão submetidos à cirurgia de grande porte, duas condições aumentam o risco de o paciente ter infecção da ferida operatória: o tabagismo e o diabetes. Caso o paciente tenha o hábito de fumar, recomenda-se que pare de fumar 30 dias antes da cirurgia; e aos pacientes com diabetes, recomenda-se que tenham a glicemia (taxa de açúcar no sangue) controlada”, conclui o especialista do HA.